Um casal de jovens que ama e sofre muito juntos, em uma tempestade sobre a cidade, a amante dá banho no namorado encharcado na casa de seus pais e o coloca para dormir, deitando-se junto, e fazendo um cafuné na cabeça do amado. De manhã, ele acorda cedo para ir ao trabalho, ela não estava nem em seu quarto ou em qualquer cômodo da própria casa, e desce as escadas a caminho da porta de entrada, quando interrompido pelos sogros arrogantes (pelos jovens terem dormido juntos) que perguntavam se a garota ainda dormia, acenou positivamente, porém incerto, e assim foi para o longo e árduo caminho ao trabalho.
No primeiro dia de trabalho, tudo normal. Levemente preocupado, ligava para a amada. Sem resposta. No fim da primeira semana após o ocorrido, o stress pesa em seus ombros, o rendimento no trabalho cai e a memória começa assim, a falhar, decorrido cansaço. Em casa, só, ele assistia a um programa noturno e rotineiro na televisão. Um comercial longo entra no ar e em decorrentes 30 segundos, ele já não conseguia mais dizer qual o programa que estava assistindo. Normal. Cansaço. Saudade.
O esquecimento vira rotina, já não lembrava mais a voz ou a localização exata da marca de nascença na virilha de sua tão amada amante. A regra do casal de não tirar fotos parecia tão ruim neste momento de saudade, completavam-se ali duas semanas que o carente namorado chorava de saudade de sua dona antes de dormir todas as noites e nem uma carta ou objeto que mostrasse os dois juntos, apenas as lembranças que nosso protagonista estava a esquecer involuntariamente.
No trabalho, fora chamado atenção cinco vezes por esquecer partes fundamentais e prazos de entrega de fechamentos ao concluir algum serviço. Chegando em casa na terceira sexta-feira após o ultimo toque no rosto de sua querida, ele deita na cama por horas e lembra de uma conversa que os dois tiveram deitados na cama de casal dele, que era baseada em que cor seria a do filho do casal, ruivo, como a mãe, ou castanho, como o do pai, nas lembranças, uma voz prevalecia, a dele, como em uma história contada cujo autor oral era o amante. (Como no Inception, que a partir de algum momento, você não sabe se é sonho ou realidade, neste roteiro, o filme entra em colisão entre história fictícia, imaginação, lembrança, lembrança esquecida ou real). O fato de já não se lembrar de detalhes pequenos ou fatos irrelevantes já lhe prejudica e ele tenta focar na lembrança da conversa, à procura de pistas. Imaginou seu filho ali, correndo no quarto e adormeceu. Sonhou com a criança e a já esposa viajando a praia, o garoto de duas cores no cabelo, ruivo e castanho, fazendo castelos de areia e cavernas à beira mar. Acordando, a criança o persegue em todos os lugares, no trabalho, na rua, ligando para a amorosa, em todos os lugares, em todos os momentos. Um mês completado após sua amada ter sumido, a cabeça já não conseguia manter-se no lugar, o stress, a saudade, tudo vindo à tona, ele decide ligar para os pais da companheira, eles o dizem que o iriam procurar até a morte e que iriam o prender com tudo que tinham direito e com pena máxima por ter sequestrado a filha deles. Ele desliga com medo de um rastreamento policial e desaba em lágrimas. O garoto do cabelo de duas cores vem lhe consolar e sussurra em seu ouvido com a voz dela: Lembre-se.
Um flash na mente estala e algumas memorias voltam à cabeça do nosso ‘herói’. Ele se esforça e lembra dos lugares que andaram juntos, escola fundamental, médio, as casas de ambos, parques, praia, montanhas. Pede adiantamento e retira todo o dinheiro da poupança, com isso viaja para a praia e para as montanhas. Lembra-se das trilhas, lembra-se das trilhas e dos beijos que ali deram. Dois meses depois, ele volta para a cidade, desamparado e maltrapilho. A barba de dois meses e o cabelo liso escorria pelo rosto machucado. Lembra-se que o ultimo lugar que ele a viu, fora em sua casa. Não poderia ir lá, os pais dela o mataria. Então, à noite, pulou a janela do quarto e entrou. O quarto estava intacto, a porta trancada para as lágrimas dos pais não entrarem e os insetos não invadirem o espaço de sua menina. Vasculhou o quarto todo. A primeira calcinha que tirou do corpo de sua parceira, um sutiã de bichinho, um tênis antigo e foi à penteadeira, empanturrada de cabelo caído dela. Ele deitou na cama e dormiu. Sonhou com o ultimo momento que ela o tocou e a canção de ninar que cantou, “No lugar de encontro/no fundo da caverna de males/te encontrarei a um ponto/de viver contigo nos mares”. Quando acordou, a lembrança veio, na praia, quando dormiam na areia, uma tempestade começou a cair, e eles correram em direções diferentes, mas o ponto de encontro, era uma caverna.
Lá voltava o moreno para a praia, à caverna. A caverna era escura, embora era dia. Andou, andou e andou. Agua entrava em seus pés descalços, uma luz vinha ao fundo. Fumaça. Uma casa de madeira e folhas de bananeira e coqueiro. Pela janelinha, um fogão de barro acesso, ele entra na casa e ele vê os cabelos ruivos e a roupa apertada. A figura estava cozinhando algo, para um bebê. Um bebê com o cabelo de duas cores diferentes. Ela dá a primeira colherada de comida ao bebê e começa a chorar “Amor... Se estiver me ouvindo... Quero você” Ele a pega no colo “vamos viver a um ponto dos mares, eu, você, nosso filho, e os tantos outros frutos do nosso amor que estão por vir” “pensei que iria me abandonar” “desculpa, mas não lembro de ter pensado de ter pensado uma única vez em deixar-te e você, indo embora, levar meu coração”. Eles pegam o bebê, e abrem uma cortina de bananeira e a vista para o mar aparece à 3 metros abaixo do chão da caverna. Fim.
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